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Beagá com carinho

  • Foto do escritor: Arthur Maresca
    Arthur Maresca
  • 27 de out. de 2016
  • 2 min de leitura

Foto: Igreja São Francisco, projeto de Niemeyer à beira da Lagoa da Pampulha

O ônibus parte às 14h. São 13h43. A rodoviária é um lugar atrasado: cadeiras vermelhas desgastadas, esteiras rolantes que não funcionam, piso emborrachado sujo, lanchonetes com outdoors amarelados. Apreciar o cenário quase vintage que abriga o fluxo de pessoas torna impossível não pensar na música "Encontros e despedidas".

Tem gente que vem e quer voltar Tem gente que vai, quer ficar Tem gente que veio só olhar Tem gente a sorrir e a chorar

Treze horas e cinquenta. Desço para a plataforma de embarque, um funcionário põe minha mala no bagageiro do ônibus desejando-me boa viagem. Embarco, sento-me e olho da janela, penso na previsão do tempo que indica chuva em São Paulo. O motorista apresenta-se, senta no seu banco, fecha a porta e o ônibus começa a mexer. Da janela dá para ver a saída da rodoviária, o ônibus vai passar por um viaduto que tem uma vista panorâmica para Belo Horizonte.

Um sentimento de gratidão me enche. Há algo de muito acolhedor aqui. Não sei se por causa das ruas manchadas de terra vermelha ou por cada canto ser arborizado. Talvez me sinta assim por conta de tudo o que fiz. Dos dias que passei na Praça da Liberdade, que admirei a Lagoa da Pampulha, que bebi, ri e dancei na Santa Tereza, que tomei café nos calçadões da Savassi. Que cidade amável! Do funcionário idoso da livraria à estudante que proclama um discurso abrasado numa ocupação universitária.

Tanta amabilidade e conveniência me fez pensar que às vezes, para botar as suas coisas no eixo, tem que mudar os ares. Precisa desaportar. Afinal de contas, navio nenhum foi feito para ficar ancorado. A âncora é só um instrumento, mas a finalidade do navio é o transporte, é navegar. Navegar para o centro de um estado sem mar, até que não me parece má ideia.

Vinte e duas horas e dezoito minutos. Trovões e raios amedrontam os carros da Marginal. O ônibus abre a porta, estamos na Rodoviária do Tietê. Tudo é cheio: os corredores, a estação de metrô, os vagões, as avenidas, os pontos de ônibus. Sou apaixonado pela Cidade Desvairada, mas estou cheio de carinho e saudade por Beagá.

A hora do encontro É também, despedida A plataforma dessa estação É a vida desse meu lugar

É a vida

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Post dedicado aos meus familiares mineiros e aos amigos que fiz nessa viagem. Vocês são ótimos!

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