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Nossos avós

  • Foto do escritor: Arthur Maresca
    Arthur Maresca
  • 16 de dez. de 2016
  • 3 min de leitura

Atualizado: 1 de mai. de 2020


Era dez de dezembro de 2016. Às 7h30, mais ou menos, meu pai, sem nenhum rodeio, me acorda: "Arthur, acorda! Seu avô morreu". Pensei que ainda estava dormindo. Mas eu sabia que meu avô estava ruim, ele sofria de muita fraqueza e já tinha 92 anos. Em seguida ouvi os prantos pesados da minha mãe. O pesadelo é real. O fato é que as pessoas que pensamos que nunca sairão das nossas vidas, um dia elas saem.

Avós são figuras muito amáveis. Eles são pais dos nossos pais e parece que se sentem libertos para serem o mais carinhosos e generosos possível com os netos. Podem mimar à vontade os netos, afinal, não têm a responsabilidade da criação, a função deles é justamente arrancar o sorriso dos netos. Assim são eles comigo, e me sinto tão privilegiado por isso, que nunca serei grato o suficiente ao carinho deles.

Tive sete avós. Exatamente, sete. O Vô Oscar (pai biológico da minha mãe), Vô Henrique (Henrique é o nome brasileiro do pai de criação da minha mãe, Hiroaki), Vó Lídia (avó materna), Vó Adi (avó paterna), o Vô Chico (avô paterno), o Vô Osmar (padrasto do meu pai) e, por fim, a vó Gabi, uma senhora de cabelos brancos longos que criava tartarugas no quintal e me chamava de netinho. Todos eles foram tão maravilhosos comigo. Com uns eu tive menor convivência. Com outros, eu já morei bem perto. Mas para mim todos eles são igualmente avós. E depois de perder meu Vô Chico, a Vó Adi e a Vó Gabi, no último fim de semana foi a vez de despedir-se do Vô Oscar.

Oscar Caetano Júnior era, para mim, meu avô mais misterioso. Para começar, ele morava a mil e duzentos quilômetros de mim. Ele era cheio de histórias, as pessoas sempre falaram muito dele, mas ele mesmo não era de falar muito. O negócio dele era ler, lia todos os dias os jornais e os seus livros empoeirados. Às vezes, depois de uma leitura, sentado na cadeira de balanço, olhava para o nada, meditava e balançava-se. Foi diretor de escola, advogou, foi prefeito de uma cidadezinha do norte de Minas, jogou futebol profissional, teve longo histórico com mulheres e affairs. Ele era filho de um coronel, o Sr. Oscar Caetano Gomes e de Alice Mendonça, cujo apelido era "mãe dos pobres", por ser muito generosa. Foi pai de outros nove cidadãos mineiros. Viveu em Londres durante um tempo, conhecia algumas das capitais brasileiras, mas nunca foi tão fiel a um lugar como ao Sertão Mineiro. Tanta vivência e sabedoria o tornaram um homem extremamente humilde e bondoso. Daí eu fico pensando que, poxa, eu poderia aprender tanta coisa com o meu avô, mas a morte o levou embora! Embora foi com a morte, marcado deixou o aprendizado.

Com toda a vivência dos nossos avós, muitos deles fizeram dessa vivência um meio para construir sabedoria. Meu avô, claro, tinha alguns defeitos, posso me lembrar de alguns deles. Mas, como aquele rei bíblico pôde provar, Salomão, que teve uma vida entupida de luxúria, é tudo vaidade, e a vaidade é como o vento, um sopro de vento que te dá um espetacular prazer, mas some e esvazia a sensação. O que importa é a memória, o carinho, rir, gargalhar, matar-se de ser feliz. Essa é a maior lição que meus avós me ensinaram. Obrigado, avós que já se foram, vocês deixam uma saudade enorme. E aos avós que estão aqui comigo, aproveito para dizer que ainda quero aprender uma montanha de coisas com vocês.

À memória de Oscar Caetano Júnior.

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